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O sectarismo do voto útil

Foto do escritor: Danilo Zajac
Danilo Zajac
há 2 horas
8 min de leitura

Será que eu estou errado?


Desde que publicizei os candidatos aos quais pretendo votar no Instagram, tenho recebido algumas mensagens de pessoas de diferentes correntes políticas, filiados a partidos e movimentos ou não, de esquerda e até progressistas/"liberais", dizendo que vou às urnas de forma inconsequente, que não estou fazendo os cálculos eleitorais corretos. O obejtivo é desqualificar, ou até fazer chacota da minha escolha por Hertz Dias (PSTU) à presidência da república. As menções se baseiam em duas grandes premissas:


a) que eu estaria ajudando a candidatura de Flávio Bolsonaro;

b) que eu estaria jogando voto fora.


Minhas escolhas para o pleito de 04/10/2026. Você também pode fazer uma colinha dessas para divulgar seus candidatos em https://minhacolinha.com/.
Minhas escolhas para o pleito de 04/10/2026. Você também pode fazer uma colinha dessas para divulgar seus candidatos em https://minhacolinha.com/.

Como as atenções se concentraram apenas na minha escolha por não votar em Lula neste 1º turno - o alvoroço poderia ter se concentrado também no meu não-voto em Simone Tebet (PSB) -, vou sustentar meus argumentos com base no pleito à presidência.


Comecemos tirando o espantalho da sala,. Para isso, vou apelar para um trecho de um artigo meu neste blog, em que analiso o plano de governo de Luiz Inácio e as propostas para Educação nele contidas:

É verdade (...) que o Partido dos Trabalhadores constitui hoje a maior organização da esquerda brasileira e é a que possui a maior capilaridade na classe trabalhadora deste país. Também é verdade que o projeto político que tem sido tocado pelos governos do partido à frente do executivo nacional é evidentemente diferente dos que o antecederam (ex. FHC) e dos que assumiram durante o interregno golpista (Temer e Bolsonaro). Vi essa diferença, tanto nas diversas conquistas dos trabalhadores, quanto também pessoalmente. Obtive minhas primeiras graduações e o mestrado na UFABC, que é fruto do Programa de Apoio a Planos de Reestruturação e Expansão das Universidades Federais (REUNI) e tive a certeza de seguir da carreira docente devido à minha participação no Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (PIBID), ambos programas criados pelos governos petistas. Sim, sei que não é a mesma coisa. A destruição do Estado brasileiro da forma com que sonha a extrema-direita não me interessa, tampouco deveria interessar as classes trabalhadoras deste país. [1]

Dado o resultado das pesquisas eleitorais, fica claro que Lula será a minha escolha para o 2º turno, mas a primeira volta não se resume em 13 x 22. A apresentação de candidaturas para a festa da democracia burguesa (sic), mesmo as candidaturas com pouca chance de se elegerem, tem por objetivo a construção de programas alternativos, suas estratégias e seus projetos de país. Na análise que fiz dos programas de governo, fica claro o meu descontentamento com o plano do PT para a Educação. Na verdade, o documento não se configura como um plano, mas sim uma prestação de contas, como se isso fosse suficiente para habilitar um novo mandato de Lula ao planalto.


Por que escolhi Hertz Dias ao invés de Lula?


O plano do PSTU e de Hertz é mais ousado, põe o dedo na ferida em muitas contradições do atual governo e, especialmente, aponta para os problemas da educação brasileira de forma mais transparente. Sendo eu um pesquisador em Educação, fica difícil não escolher uma candidatura que critique abertamente a plataformização, a militarização, as OSs, as reformas do Ensino Médio, a BNCC e as fundações empresariais. Do lado petista, não existe menção crítica alguma a esses pontos em seu plano de governo, muito pelo contrário, supostamente tudo vai bem e, se continuar assim, tende a melhorar ainda mais.


É verdade que o PSTU não deixa claro como vai colocar suas propostas em ação, seja na Educação, seja em qualquer outra área. Também preciso dizer que não compactuo com muitas posições do partido, sobretudo as que tem a ver com questões internacionais e históricas. O meu voto tem razões objetivas que vencem as minhas discordâncias, porque a minha leitura sobre o pleito burguês é a mesma de Lenin, uma oportunidade de "dar a todo o povo, e em particular às massas proletárias, um exemplo de crítica fiel aos princípios alheios, firme e audaciosa" [2]. Com isso eu não quero parecer mais revolucionário que os que já votarão em Lula no 1º turno, eu só quero firmar posição. Firmo posição porque nem tudo nesse mundo político se resume à luta institucional que o PT tenta fazer aos trancos e barrancos - e por escolha própria.


Fica diíficil defender a luta institucional petista quando ela própria, muitas vezes, se sabota. A elogiada genialidade política de Lula fica bem desacreditada em muitas ações deste mandato. Exemplo disso foi a decisão do governo, não do congresso, de criar um teto de gastos 2.0, na forma do chamado arcabouço fiscal. Da mesma forma que Lula agora critica quem critica a proibição das BETs [3], vivemos um longo período sem nenhum tipo de restrição fiscal desta natureza, porque deveríamos continuar a ter? Já era visível, à época da sua tramitação, que o arrocho fiscal seria um tiro no pé: apesar da avaliação positiva do plano de governo de Lula sobre o que foi feito no atual mandato, as pesquisas de avaliação do governo não dizem a mesma coisa, muito por conta do teto fiscal.

Num cenário em que o teto de gastos de Temer já estava absolutamente desacreditado, ao invés de pressionar por uma regra fiscal radicalmente distinta (ou mesmo regra nenhuma), e de estimular para tanto a pressão dos movimentos sociais, sindicatos e da própria base parlamentar do PT, o governo Lula propõe a reatualização do teto, e para tanto imobiliza as próprias bases. Assim, restringe sua própria capacidade de investimentos, e prepara a própria forca quando tiver de manejar a economia em um cenário de crise (...). O arcabouço fiscal, como o teto de gastos, só tem um objetivo: tirar o pobre do orçamento e restringir a presença do Estado na economia. Precisamente os objetivos contrários dos propostos por Lula ao longo de sua campanha. [4]

O argumento do voto em Lula no 1º turno é sustentável e legítimo: fortalece a posição contra Flávio Bolsonaro e aponta evidente negação a tudo o que ele representa. Aponta a continuidade de bons programas, como o Bolsa Família. Aponta um país livre de BETs. Aponta mais oportunidades para os mais pobres, ainda que à conta-gotas.


A minha escolha aponta para tudo isso, mas com a clareza de que se continuarmos assim, a volta da extrema-direita para o principal cargo político-institucional do país será inevitável. Há quatro anos, falávamos contra o fascismo e a favor da democracia. O que foi feito nestes quatro anos que realmente diminuiu a força do bolsonarismo? A culpa é de toda a esquerda, mas naturalmente leva mais culpa a organização que tem a maior base popular e governou o país durante estes 4 últimos anos.


A culpa da força do bolsonarismo não é a do suposto pobre de direita. Não é ingratidão da classe média. É falta de alternativa mesmo. Para além do arrocho fiscal, toda pauta verdadeiramente de esquerda é paralisada devido a tal correlação de forças. Está claro para todos e todas que o congresso é conservador, inimigo do povo, mas pautar uma verdadeira agenda de trasformação social apresenta ganhos a longo prazo, que podem virar a nosso favor a correlação de forças.

Veja o que as feministas argentinas ensinaram pra gente. Elas apresentaram um projeto de lei sobre o aborto que sabiam que não seria aprovado,não tinha a correlação de força. E não fizeram por masoquismo, elas sabiam que, ao fazer isso, obrigavam a sociedade a discutir a questão. Criaram uma agenda e, ao criar uma agenda, você consegue mobilizar as pessoas, você coloca as ruas para discutir, o trabalho, a imprensa. E o que aconteceu depois disso? Elas perderam sabendo que iam perder, mas acumularam força para retornar com o tema. Elas mudaram a correlação de forças, entendeu? Quatro anos depois, apresentaram o projeto de novo e ganharam. [5]

Fico me perguntando o que aconteceria se os que lutaram pelas Diretas ou pela criação do SUS não o fizessem devido à correlação de forças. Esse imobilismo só faz crescer a extrema-direita, que de forma muito traiçoeira, se coloca contra o sistema.


Os erros da esquerda revolucionária são incontáveis, a começar por não conseguirem sequer uma candidatura à presidência unificada. É certo que a quantidade de votos nestas candidaturas pulverizadas seja pequena, até irrelevante. Ainda assim, reduzir o primeiro turno a uma disputa entre apenas dois candidatos tira seu sentido original. Mais grave ainda, priva a classe trabalhadora de conhecer propostas que fujam da atual polarização. Caso o PT queira garantir a vitória logo na primeira volta, é dever deste partido ir atrás dos votos necessários e assumir a responsabilidade pelas decisões tomadas em seu governo, o que inclui seus erros táticos que fizeram com que a popularidade de um dos maiores líderes que a esquerda brasileira já teve não fosse o suficiente para escantear um político mequetrefe como o Flavinho desmaio.


Estaria eu ajudando Flávio a se eleger no primeiro turno ou jogando voto fora?


A resposta direta é não. Para que Flávio seja eleito no primeiro turno, seria necessário ultrapassar a marca de 50% dos votos válidos. Ao votar em Hertz, eu não somo voto no miliciano. Muito pelo contrário, eu fortaleço o campo da esquerda revolucionária que, a despeito de ser ainda muito pequena, precisa marcar terreno no pleito para poder fortalecer as críticas que possui ao governo Lula. Ao votar em Hertz, eu deixo claro que sou de esquerda e que me oponho ao Bolsonaro, mas acredito que as práticas que o Partido dos Trabalhadores vem tocando não são suficientes para o aumento da consciência de classe dos trabalhadores e trabalhadoras e para a melhoria real de suas vidas.


O governo Lula atacou o BPC. O governo Lula encampou a política de privatização via PPP. O governo Lula não revogou a reforma do Ensino Médio. O governo Lula acreditou que o investimento privado faria mais ao país que o investimento público. O governo Lula quis atacar os pisos constitucionais da Saúde e da Educação. Mesmo sendo pouco representativa e com muitos equívocos na forma de fazer deste campo em que me coloco, a minha escolha é isenta destas e outras políticas, que se fossem tocadas por governos de direita, seriam chamadas de anti-povo, neoliberais, fascistas etc.


Para os que votam em Lula e querem interditar o debate


Apesar de achar que, se vivo, Paulo Freire fosse votar em Lula já no 1º turno, certamente não seria ele a travar uma batalha contra a minha posição. Afinal, parta

de quem parta, a sectarização é um obstáculo à emancipação dos homens. Daí que seja doloroso observar que nem sempre o sectarismo de direita provoque o seu contrário, isto é, a radicalização do revolucionário. [6, p. 56]

Sobre os sectários de direita e esquerda, um

na posição que lhe é própria; o outro, na que o nega, ambos girando em torno de "sua" verdade, sentem-se abalados na sua segurança, se alguém a discute. Daí que lhes seja necessário considerar como mentira tudo o que não seja a sua verdade. "Sofrem ambos da falta de dúvida". [6, p. 59]

A estes sectários, tranquilizem-se, nos vemos em trincheiras próximas no 2º turno. A vitória de Lula é essencial, mas a disputa política de um possível Lula IV está em aberto. Eu me somarei sempre aos que defendem os trabalhadores e trabalhadoras, sem vacilação.


E, em tempo, não, a Tebet não dá.


[1] Fiz uma série de três artigos para analisar os planos de governo para a Educação dos presidenciáveis de esquerda. Apresento os três artigos a seguir, sendo que o trecho referenciado é do último artigo. https://www.radicalizando.com/post/como-fica-a-educa%C3%A7%C3%A3o-nos-planos-de-governo-dos-presidenci%C3%A1veis-de-esquerda

[3] Esse negócio da gente ter acabado com as bets não traz nenhum prejuízo para o futebol. [...] Os melhores momentos da história do futebol brasileiro, não existia a bets. O Brasil foi campeão do mundo em 1958, em 1962, em 1970, em 1994, em 2002, não existia bets. O Flamengo foi campeão do mundo em 81, o São Paulo foi campeão do mundo três vezes, o Corinthians foi campeão do mundo, o Grêmio foi campeão do mundo... Lamentavelmente, o Palmeiras não foi. O Santos foi duas vezes campeão do mundo e não existia bets. https://noticias.uol.com.br/eleicoes/2026/09/28/apos-proibicao-das-bets-lula-critica-clubes-eles-que-se-virem.htm

[6] FREIRE, Paulo. Pedagogia do oprimido. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2016.

 
 

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